Procurando mulheres locais

More about Belarus color "revolution"

2020.08.27 16:02 Scabello More about Belarus color "revolution"

Text from a amazing marxist virtual magazine from Brazil.

https://revistaopera.com.b2020/08/26/belarus-nacionalismo-e-oposicao/

Belarus: nacionalismo e oposição


As manifestações em Belarus estão recebendo uma grande cobertura nos meios ocidentais, o que se reflete na imprensa brasileira, que se contenta em traduzir e repetir aquilo que é dito em grandes veículos europeus. A amplitude e até a paixão dessa cobertura gera, por efeito de contraste, uma sensação de falta de profundidade, já que em meio de tantas notícias, carecemos até mesmo de uma introdução sobre aspectos específicos do conflito e dos atores que participam dele. O que a cobertura nos oferece, no entanto, é uma narrativa sobre manifestantes lutando contra um ditador em nome da liberdade, discurso fortalecido por uma certa abundância de imagens. Na frente desta luta, a candidata derrotada – alegadamente vítima de fraude – Sviatlana Tsikhanouskaya, uma “mulher simples”, “apenas uma dona de casa”, o símbolo da mudança. Em alguns dos meios de esquerda e alternativos, este posicionamento da grande mídia já gera uma certa desconfiança. Imediatamente surgem perguntas sobre quem forma essa oposição e se podemos fazer comparações com a Ucrânia em 2014, onde uma “revolução democrática” foi acompanhada por grupos neofascistas, ultranacionalismo e chauvinismo anti-russo. Outros já se revoltam contra o reflexo condicionado e declaram que não podemos julgar os eventos de Belarus pela ótica dos eventos ucranianos, e que avaliações não deveriam ser feitas na função inversa da grande mídia. Me deparando com a diversidade de problemas que podem ser desenvolvidos a partir do problema de Belarus, decidi começar com um problema simples de imagem e simbologia, mas que nos traz muitas informações. As imagens que estampam os jornais são dominadas por duas cores: branco e vermelho.

Uma disputa pela história

Uma faixa branca em cima, uma faixa vermelha no meio e outra faixa branca embaixo – esta bandeira domina as manifestações oposicionistas em Belarus. Ela surgiu primeiro em 1919, em uma breve experiência política chamada de República Popular Bielorrussa, órgão liderado por nacionalistas mas criado pela ocupação alemã no contexto do pós-Primeira Guerra, Guerra Civil na Rússia e intervenção estrangeira que ocorreu naquele período. Uma bandeira diferente do símbolo oficial de Belarus: do lado esquerdo, uma faixa vertical reproduz um padrão tradicional bielorrusso, como na costura, em vermelho e branco, do lado duas faixas horizontais, vermelho sobre verde (somente um terço em verde). Bandeira muito similar à velha bandeira da República Socialista Soviética de Belarus, com a diferença que na antiga o padrão tradicional estava com as cores invertidas e na massa vermelha horizontal brilhava a foice-e-martelo amarela com uma estrela vermelha em cima. Os manifestantes também usam um brasão de armas histórico do Grão Ducado da Lituânia, a Pahonia, onde vemos um cavaleiro branco, brandindo sua espada e segurando um escudo adornado por uma cruz jaguelônica. O emblema oficial de Belarus, no entanto, é diferente, correspondendo à simbologia soviética, onde um sol que se levanta sobre o globo ilumina o mapa de Belarus, com bagos de trigo nos flancos e uma estrela vermelha coroando a imagem. Essa diferença entre símbolos do governo e da oposição não é só uma diferença política momentânea, mas remete a uma disputa pela identidade nacional de Belarus, a processos divergentes de formação de consciência nacional, conforme exemplificados por Grigory Ioffe. Quando Belarus se tornou independente da União Soviética nos anos 90, isto aconteceu apesar da vontade popular, sem movimentos separatistas como os que ocorreram vigorosamente nas repúblicas soviéticas bálticas, vizinhas de Belarus pelo norte, ou na parte ocidental da Ucrânia, país que faz fronteira com Belarus pelo sul. Pelo menos até pouco tempo atrás, a maioria dos cidadãos se identificava com a Rússia e concebia a história de Belarus no marco de uma história soviética. Para a maioria da população, o evento mais importante da história de Belarus foi a Grande Guerra Patriótica, isto é, a resistência contra os invasores nazistas, o movimento partisan como primeiro ato de vontade coletiva. É depois da guerra que os bielorrussos se tornam maioria nas cidades do país (antes de maioria judaica, polaca e russa), bem como dirigentes da república soviética – líderes partisans se tornaram líderes do partido. Esse discurso filo-soviético também é acompanhado pela ideia de proximidade com a cultura russa, inclusive a constatação de que é difícil fazer uma diferenciação nacional entre as duas culturas. Em termos de narrativa histórica, isso é acompanhado por afirmações como a de que a Rússia salvou o povo das “terras de Belarus” da opressão nacional e religiosa dos poloneses. Então, figuras históricas da Rússia são lembradas, como por exemplo o general Alexander Suvorov (1730 – 1800), que é celebrado como um herói da luta contra a invasão polonesa das “terras de Belarus” e da Rússia em geral. Essa ideia de união entre Rússia e Belarus é fundamental para o pan-eslavismo. A revolução em 1917 também é considerada um episódio nacional, o começo da criação nacional de Belarus dentro da União Soviética, com sua própria seção bolchevique e adesão dos camponeses à utopia comunista, mas nem isso e nem a história nacional russa superam a Segunda Guerra Mundial como fator de consciência nacional. Contra esta visão surgiu uma alternativa ocidentalizante, que propõe que Belarus é um país completamente diferente da Rússia, que foi dominado pela Rússia e que precisa romper com Moscou para ser um país europeu. Essa tendência tenta afirmar a existência de um componente bielorrusso específico na Comunidade Polaco-Lituana, identificando a elite pré-nacional com nobres locais. Atribuem a “falta de consciência nacional” no país à intrigas externas. Seus heróis de forma geral são heróis poloneses, e celebram quando os poloneses invadiram a Rússia. Se esforçam por fazer uma revisão histórica que justifique a existência de uma nacionalidade bielorrussa atacando a narrativa ligada à Segunda Guerra Mundial, renegando a luta dos partisans e enquadrando sua nação como uma “vítima do estalinismo”, que passa ser comparado com o nazismo como uma força externa. Suas preocupações centrais, além de tentar construir uma história de Belarus antes do século XX, está a preservação da língua bielorrussa em particular, com suas diferenças em relação ao russo. Nessa visão, as repressões do período Stálin deixam de ser uma realidade compartilhada com os russos e outras nacionalidades soviéticas, para ser entendida como uma repressão contra a nação de Belarus, exemplificada principalmente pela repressão de intelectuais nacionalistas. Na tentativa de desconstruir o “estalinismo” e os partisans, os nacionalistas defenderam a Rada Central de Belarus, um órgão colaboracionista criado pela ocupação alemã, que não pode ser chamado sequer de governo títere, mas que adotava a visão histórica dos nacionalistas e fez escolas de língua exclusivamente bielorrussa em Minsk. A Rada foi liderada por Radasłaŭ Astroŭski, que foi para o exílio norte-americano e dissolveu órgão depois da guerra para evitar responsabilização por crimes de guerra. A versão nacionalista não só defende a “posição complicada” dos colaboradores nos anos 40, como revisa positivamente o papel do oficial nazista Wilhelm Kobe, Comissário Geral para Belarus entre 1941 e 1943 (até ser assassinado pela partisan Yelena Mazanik). Argumenta-se que Kobe seria um homem interessado nas coisas bielorrussas e seu domínio permitiu o florescimento nacionalista. Do lado colaboracionista existiu uma Polícia Auxiliar e a Guarda Territorial Bielorrusa, as duas ligadas aos massacres nazistas e associadas a uma das unidades mais infames da SS, a 36ª Divisão de Granadeiros da SS “Dirlewanger”. Depois, foi formada por uma brigada bielorrussa na 30ª da SS. A colaboração usava as bandeiras vermelha e branca, com a Guarda Territorial usando braçadeiras nessa cor. Essas cores seriam retomadas na independência do país em 1991, mas foram muito atacadas por sua associação com a colaboração. Por isso ela foi rechaçada por uma maioria esmagadora em um referendo realizado em 1995, que definiu os símbolos nacionais de hoje e mudou o “Dia da Independência” para 3 de Julho, dia em que Minsk foi libertada das forças de ocupação nazista, em 1944. A visão nacionalista e ocidentalizante é minoritária, compartilhada por algo entre 8% e 10% da população; número que é consistente com o número de católicos do país – um pouco maior, na verdade, o que serve para contemplar uma minoria de jovens de Minsk, que proporcionalmente tendem a ser mais adeptos de uma visão distinta da história soviética. Em 1991, o nacionalismo se reuniu na Frente Popular Bielorrussa, em torno da figura do arqueólogo Zianon Pazniak, que representava uma militância radical, anti-russa, europeísta e guardiã dessa simbologia nacional. O movimento fracassou e parte disso provavelmente se deve à liderança de Pazniak, tido como intolerante. Havia também um movimento paramilitar chamado Legião Branca, que se confrontaria com Lukashenko no final dos anos 90. Estes seriam “os nazis bielorrussos dos anos 90”, pecha que é disputada por seus defensores, que os retratam até mesmo como democratas, mas que é justificada por seus detratores baseada em seu separatismo étnico e intolerância dirigida aos russos apesar de viverem no mesmo espaço e a maioria do seu próprio país falar a língua russa. Ainda assim, o alvo-rubro vem sendo reivindicado como um símbolo de liberdade, democracia e independência: seus defensores vêm tentando firmar a identidade dessa bandeira mais em 1991 do que em 1941. Para todos os efeitos, se tornou um símbolo de oposição Lukashenko, símbolo de “outra Belarus”, com boa parte dos jovens mantendo uma atitude receptiva em relação a ela – um símbolo carregado de controvérsia, mesmo assim. Essas divergências simbólicas escondem diferentes histórias e questões políticas radicais. Além disso, é possível constatar que Belarus tem dois componentes nacionais externos em sua formação: os poloneses e os russos. No plano religioso, o catolicismo associado com Polônia e a ortodoxia associada à Rússia (segundo dados de 2011, 7,1% da população católica, 48,3% ortodoxa e 41,1% diz não ter religião, 3,5% se identificam com outras). Na disputa histórica, existe uma narrativa filo-soviética e outra ocidentalizante. Nesta última década, o próprio governo Lukashenko presidiu sobre uma política de aproximação e conciliação dessas narrativas históricas sobre Belarus, tentando ocupar uma posição mais nacionalista, mesmo que mantendo o núcleo soviético como fundamental. Esta aproximação foi muito criticada por um núcleo duro de patriotas e irredentistas russos. Por outro lado, dentre os manifestantes não necessariamente há uma ruptura total com a narrativa histórica partisan e motivos antifascistas, pelo menos não se buscarmos casos individuais – nesse caso, o uso histórico da bandeira seria ignorado ou superado por outra proposta. Apesar de existir uma oposição que busca lavar a bandeira alvirrubra, é possível identificar nacionalistas radicais na oposição?

Belarus não é Ucrânia – mas pode ser ucranizada?

Pelo menos em meios ocidentais, se afirmou muito que “a crise de Belarus não é geopolítica”. Muitos textos publicados no Carnegie Moscow Center elaboraram em torno dessa afirmação. A declaração da Comissão Europeia afirmou isso. O professor e colunista Thimothy Garton Ash escreveu no The Guardian que sequer se pode esperar um regime democrático liberal depois da saída de Lukashenko, e relata contatos com bielorrussos que dão a impressão de um sentimento ao mesmo tempo oposicionista e pró-russo. Por esse argumento, Belarus é diferente da Ucrânia, as manifestações não têm relação com geopolítica, os bielorrussos até gostam da Rússia e a lógica extrapola ao ponto de dizer que, portanto, Putin tende a apoiá-las. Mais de um texto fala de como a identificação entre bielorrussos e russos, como povos irmãos ou até iguais, “anula” essas questões – isto é, estes textos têm como pressuposto uma solidariedade nacional, uma continuidade entre os dois povos, algo distinto do radicalismo nacionalista. Até parecem acreditar que isto tiraria de Putin o interesse de ajudar Lukashenko ou da Rússia enquadrar esses eventos na sua visão estratégica como algo equivalente ao problema ucraniano. De fato, Belarus não é a Ucrânia. A divisão sobre a identidade nacional não é tão polarizada em Belarus como é na Ucrânia. A divisão regional e linguística, bem como as diferentes orientações geopolíticas, não é tão radical. A marca da colaboração e suas consequências políticas não é tão forte em Belarus como é na Ucrânia – não acredito que o nacionalismo em Belarus está no mesmo patamar do ultranacionalismo ucraniano. No plano da operação política, a comparação com a Ucrânia é feita em função do Maidan de 2014, onde também existem diferenças. O Maidan teve a participação decisiva de partidos políticos consolidados e posicionados dentro do Parlamento, que no momento final tomaram o poder do presidente Yanukovich usando seu poder parlamentar. Partidos ligados a oligarcas multimilionários, com políticos que enriqueceram em negócios de gás, e nas ruas uma tropa de choque de manifestantes formada por nacionalistas bem organizados. Dito isso, devemos olhar para o posicionamento da oposição bielorrussa e não aceitar de forma acrítica as narrativas de que a manifestação não tem nada a ver com geopolítica e que não possuí liderança. Alegam que questões como adesão à OTAN e integração europeia não são primárias na política de Belarus – será mesmo? E essas questões nacionais, não têm relação alguma com as manifestações? Primeiro, um dos movimentos que protagoniza enfrentamentos de rua em Belarus desde outros anos (especialmente nos enfrentamentos de rua de 2010) e se destaca nos meios oposicionistas, inclusive com reconhecimento ocidental, é a Frente Jovem, que é um movimento nacional radical, acusado de filo-fascista e ligado aos neofascistas ucranianos. Este movimento também é ligado ao partido Democracia Cristã Bielorrusa (DCB), o qual ajudou a fundar. Ambos são contra o status oficial da língua russa e querem retirar o russo das escolas. Pavel Sevyarynets, um dos fundadores da Frente Jovem e liderança da DCB, é frequentemente referido como dissidente e “prisioneiro de consciência” foi organizador da campanha “Belarus à Europa”. Ele foi preso antes das eleições como um organizador de distúrbios. A Revista Opera teve acesso ao material de um jornalista internacional que entrevistou um professor de artes bielorrusso, autoproclamado anarquista e defensor das manifestações, que se referiu à prisão de Sevyarynets como um ato preventivo do governo e respondeu a uma pergunta sobre as reivindicações do movimento dizendo que as pessoas tem em sua maior parte bandeiras nacionalistas. Em segundo lugar, cabe ressaltar que um dos principais partidos de oposição e representante das declarações atuais é o Partido da Frente Popular Bielorussa (PFPB), descendente da Frente Popular dos anos 90, um partido de direita, adepto da interpretação nacionalista, hostil à Rússia e pró-europeu. O PFPB, a Democracia Cristã, a Frente Jovem e o partido “Pela Liberdade” são parte de um “Bloco pela Independência de Belarus”. Estes movimentos tiveram vários contatos com grupos neofascistas ucranianos, com a Frente Jovem em específico mantendo relações de longa data e tomando parte em marchas em homenagem a colaboradores como Stepan Bandera e Roman Shukeyvich (que na SS Natchigall foi um carrasco dos habitantes e partisans do sul de Belarus) – diga-se, entretanto, que não necessariamente funcionam da mesma forma que as organizações extremistas. Mesmo movimentos que se organizam como ONGs, com aparência de ativismo genérico e recebendo dinheiro de programas para promover a democracia a partir da Lituânia (que por sua vez direciona dinheiro do Departamento de Estado dos Estados Unidos), servem como organizações nacionalistas, como é o caso da ONG BNR100. Em terceiro lugar, podemos olhar para algumas lideranças de oposição presentes no Conselho de Coordenação formado para derrubar Lukashenko. Foi proclamado que o Conselho de Coordenação é composto por “pessoas destacadas, profissionais, verdadeiros bielorrussos”, por aqueles que “representam o povo bielorrusso da melhor maneira, que nestes dias estão escrevendo uma nova página da história bielorrussa”. Olga Kovalkova, peça importante da campanha de Sviatlana Tsikhanouskaya, que já havia listado pessoas do conselho antes dele ser anunciado oficialmente, em sua página do Facebook. Ela mesma é um dos membros. É graduada pela Transparency International School on Integrity e pela Eastern European School of Political Studies (registrada em Kiev, patrocinada pela USAID, National Endowment for Democracy, Open Society Foundation, Rockefeller Foundation, Ministério das Relações Exteriores da Polônia, União Europeia e estruturas da OTAN). Kovalkova é co-presidente da Democracia Cristã Bielorrussa; defende a saída de Belarus da Organização Tratado de Segurança Coletiva (OTSC; Tratado de Takshent), a separação do Estado da União com a Rússia e a retirada do russo da vida pública. O outro co-presidente da DCB, Vitaly Rymashevsky, também está no conselho. Ales Bialiatski, famoso como defensor dos direitos humanos e que foi preso sob acusação de enganar o fisco a respeito da extensão de sua fortuna, também fez parte do movimento nacionalista da Frente Popular de Belarus, do qual foi secretário entre 1996 e 1999 e vice-presidente entre 1999 e 2001. Também é fundador da organização Comunidade Católica Bielorrussa. É presidente do Viasna Human Rights Centre (financiado por Eurasia Foundation, USAID e OpenSociety) e recebeu o prêmio liberdade do Atlantic Council, além de prêmios e financiamentos na Polônia. Sua prisão em 2011 foi baseada em dados financeiros fornecidos por promotores poloneses e lituanos, enquadrado por um artigo de sonegação da lei bielorrussa.
Na hoste dos nacionalistas mais comprometidos representados no Comitê de Coordenação temos também Yuras Gubarevich, fundador do partido “Pela Liberdade”, antes um dos fundadores da “Frente Jovem” e foi durante anos liderança do Partido Popular; uma das grandes lideranças oposicionistas.
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Pavel Belaus é ligado à Frente Jovem, um dos líderes da ONG Hodna e dono da loja de símbolos nacionalistas Symbal. Ele também é ligado ao movimento neofascista ucraniano Pravy Sektor e esteve envolvido na rede de voluntários bielorrussos para a Ucrânia. Andriy Stryzhak, do BNR100, ligado ao Partido da Frente Popular, coordenador da iniciativa BYCOVID19. Participou do Euromaidan, de campanhas de solidariedade com a “Operação Antiterrorista” de Kiev no leste da Ucrânia e de articulação com voluntários bielorrussos. Andrey Egorov promove a integração europeia. Alexander Dobrovolsky, líder liberal ligado ao velho eixo de aliados de Boris Yeltsin no parlamento soviético, é pró-ocidente. Sergei Chaly trabalhou em campanhas de Lukashenko no passado, é um especialista do mundo financeiro, ligado a oposição liberal russa e pro ocidente. Sim, também existem elementos de esquerda liberal ligados ao Partido Social Democrata de Belarus (Hromada), uma dissidência do PSD oficial, que é a favor da adesão à União Europeia e da OTAN. Dito isso, não falamos o suficiente da influência nacionalista. Tomemos por exemplo o grupo Charter 97, apoiado pelo ocidente, principalmente pela Radio Free Europe, que se estiliza como um movimento demo-liberal. Dão espaço para a Frente Jovem, onde naturalmente seu líder pode chamar os bielorrussos que combatem na Ucrânia de “heróis” pois combatem a “horda” (se referindo a Rússia da mesma maneira que o Pravy Sektor). Voluntários bielorrussos combateram ao lado de unidades do Pravy Sektor e do Batalhão Azov. Durante as manifestações, o Charter 97 publicou, no dia 15 de agosto, um texto comemorando o “Milagre sobre o Vistula: no dia 15 de agosto o exército polonês salvou a Europa dos bolcheviques” e “Dez Vitórias de Belarus”, em que a Rússia é retratada como “inimigo secular” dos bielorrussos. Ações de ocupação de poloneses contra a Rússia são celebradas como “vitórias bielorrussas”. É importante também observar o papel que padres católicos vêm cumprindo nas manifestações, inclusive se colocando à frente de algumas delas. O bispo católico Oleg Butkevich questionou as eleições no dia 12 de agosto. Pelo menos em Lida, em Vitebetsk, Maladzyechna e em Polotsk, clérigos organizaram manifestações. Em Minsk, tomou parte o secretário de imprensa da Conferência de Bispos de Belarus, Yury Sanko. Em Polotsk, sobre a justificativa de ser uma procissão, o padre Vyacheslav Barok falou do momento político como uma “luta do bem contra o mal”. É claro que padres católicos podem participar de movimentos políticos de massa, eles também são parte da sociedade, mas este dado não deixa de ter uma significação política específica, visto que os radicais do nacionalismo bielorrusso se organizam no seio da comunidade católica. Ao mesmo tempo, isso gera ansiedade em um “outro lado”, no que seria um lado “pró-russo”, não só por conta de conspirações sobre “catolicização” do país, mas por ter visto na experiência ucraniana a associação de clérigos do catolicismo grego a neofascistas e eventualmente o Estado bancando uma ofensiva contra a Igreja Ortodoxa russa, o que inclui tomada de terras e expropriação de templos. O mesmo problema está ocorrendo neste ano com os ortodoxos sérvios em Montenegro; existem dois precedentes recentes no mundo religioso cristão ortodoxo que podem servir para uma mobilização contra as manifestações.

Programa de oposição: em busca do elo perdido

A candidatura de Tikhanovskaya não tinha um programa muito claro fora a oposição a Lukashenko. Porém, um programa de plataforma comum da oposição, envolvendo o Partido da Frente Popular, o Partido Verde, o Hramada, a Democracia Cristã e o “Pela Liberdade” chegou a ser formulado em uma “iniciativa civil” envolvendo estes partidos e ONGs que estava no site ZaBelarus. Depois, parte deste programa foi transferido para o portal ReformBy. Quando o programa passou a ser exposto no contexto das manifestações (por volta do dia 16), a oposição tirou o site do ar, mas ele ainda pode ser acessado com a ferramenta Wayback Machine. O programa quer anular todas as reformas e referendos desde 1994, retornando à Constituição daquele ano (e conforme escrita pelo Soviete Supremo). Se compromete a retirar da língua russa seus status oficial, além de substituir a atual bandeira por uma vermelho e branca. Existe uma proposta de reforma total de todas as instituições: bancárias, centrais, locais, judiciais, policiais, militares.
O programa também tem uma sessão dedicada à previdência, criticando o sistema de repartição solidária de Belarus como “falido” e responsável por uma “alta carga tributária sobre os negócios”. Propõem “simplificação”, “desburocratização” e “alfabetização financeira da população” para que esta assuma sua parcela de responsabilidade pela aposentadoria. O sistema seria “insustentável” no ano de 2050 por razões demográficas. Também criticam o “monopólio” da previdência pública, “sem alternativas no mercado”. A proposta oposicionista é de contas individuais de pensão com contribuição obrigatória, mas sem eliminar o sistema solidário, tornando o sistema “baseado em dois pilares”; elevar a idade de aposentadoria das mulheres (57) para igual a dos homens (62); “desburocratização” através da eliminação e fusão de órgãos públicos de seguridade social; eliminar diversos tipos de benefício e igualar os valores para todos os cidadãos (independente da ocupação). Essas propostas previdenciárias em específico são assinadas por Olga Kovalkova. Na seção de economia, o programa fala de um “problema do emprego” criticando as empresas estatais e demandando flexibilização da legislação, “incentivos para os investidores”, “uma política macroeconômica de alta qualidade, i.e. inflação baixa, política fiscal disciplinada, escopo amplo para a iniciativa privada”; “o mercado de trabalho é super-regulado”, diz o documento. “Melhorar o ambiente de negócios e o clima de investimentos”, “tomar todas as medidas necessárias para atrair corporações transnacionais”, “privatização em larga escala”, “criação de um mercado de terras pleno”, “desburocratização e desmonopolização da economia”, “adoção das normas básicas de mercado e padrão de mercadorias da União Europeia”, enumera o programa dentre as diversas propostas, que incluem privatização de serviços públicos e criação de um mercado de moradia competitivo. Até aqui, com exceção da referência à língua russa, estamos falando mais de neoliberais do que nacionalistas propriamente. Podemos dizer também que pontos como adoção de padrões europeus e reformas econômicas influenciam a questão geopolítica. Ainda assim, boa parte dessas reformas econômicas também são defendidas por Viktor Barbaryka, empresário bielorrusso que era tido como principal candidato de oposição a Lukashenko que está preso por crimes financeiros; Barbaryka é considerado um “amigo do Kremlin”, pró-russo. Existe uma seção perdida, a seção de “Reforma da Segurança Nacional”. Na primeira semana de protestos, surgiu na rede uma suposta reprodução do conteúdo dessa seção¹. O conteúdo é uma análise ocidentalista que enquadra o Kremlin como uma ameaça, propondo a saída do Tratado de Takshent, da União com a Rússia e medidas para fortalecer o país com “educação patriótica”. Muitos temas que já foram vistos na Ucrânia, com a identificação do Kremlin como uma ameaça tendo como consequência a proposição de medidas contra “agentes do Kremlin” dentro do país, na mídia e na sociedade civil (e, dentre elas, uma proposta de “bielorrussificação” das igrejas). Tão logo isso passou a ser denunciado na primeira semana depois das eleições, o site inteiro foi tirado do ar. A oposição, tendo entrado em um confronto prolongado que pelo visto não esperava (contando com a queda rápida de Lukashenko) sabe que esse tipo de coisa favorece o governo e cria um campo favorável para ele, por isso agora tentam se dissociar, falando deste programa como produto de uma iniciativa privada, apesar de ser uma articulação política envolvendo líderes da oposição. Tanto seus elementos de reforma econômica combinam com o que diziam políticos de oposição liberal em junho, como as supostas posições geopolíticas casam com os nacionalistas que tomam parte da coalizão (e na verdade, é um tanto óbvio que pelo menos uma parte considerável dos liberais é pró-OTAN). No mesmo dia que tal documento foi exposto na mídia estatal bielorrussa – e mais tarde, comentado por Lukashenko em reunião do Comitê Nacional de Defesa – o Conselho de Coordenação declarou oficialmente que desejam cooperar com “todos os parceiros, incluindo a Federação Russa”. Desinformação? Por mais provocativas que sejam as posições do suposto trecho do programa, é fundamentalmente o discurso normal de nacionalistas e liberais atlantistas em Belarus; agora que os dados foram lançados, é natural que a direção oposicionista que não reconhece os resultados das eleições procure se desvencilhar desses posicionamentos estranhos aos seu objetivo mais imediato, que é derrubar Lukashenko.² Ainda que os manifestantes possam ter motivações diversas, a situação atual está longe de ser livre do peso da geopolítica e das narrativas históricas que sustentam o caminhar de um país.
Notas:¹ – Procurando o trecho em russo no Google com um intervalo de tempo entre o primeiro dia de janeiro de 2020 até o primeiro dia de agosto (isto é, antes disso virar uma febre na rede russa), o próprio mecanismo de pesquisa oferece uma página do “Za Belarus” que contém o trecho, mas com um link quebrado – sinal de que há algum registro no cache do Google. A data é dia 25 de junho.
² – O Partido da Frente Popular da Bielorrússia acusou Lukashenko de “fake news” ao divulgar o que seria o seu programa como se fosse de Tikhanovskaya, tratando as medidas como “inevitáveis para Belarus” porém “fora de questão” no momento. O programa, naturalmente, é marcado pela retórica nacionalista e defende adesão de Belarus na OTAN, mas não usa o mesmo palavreado. Da mesma forma o programa do PFPB também tem princípios liberais-conservadores na economia.
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2020.04.12 23:21 samreachers O Estado Eutanásico e a "Solução Final"

Recebi a carta às 12h23.
Almocei um ótimo pad thai, encomendado do restaurante tailandês da esquina. Caro, mas que diferença isso faz?
O programa começou há dois anos, na Holanda. Nos noticiários e meios de informação, foi fragoroso o debate. A aceitação venceu: que havia mais a fazer?
Escrevi vinte e sete mensagens, para filhos, aproximações de amigos, uma mulher a quem cortejava, mais por distração – para ambos.
Claro, era previsível a situação que agora aflorou junto a este encanecido chão do sol nascente. Já desde finais do pregresso, caído século se percebia com algum agravo a diminuição do crescimento vegetativo em muitos países. Alguns procuraram incentivar, até financeiramente, a que seus cidadãos procriassem. Outros tantos viram na imigração a solução paliativa para seu problema estato-existencial.
Por tudo se pagou um preço, e o tempo, as décadas seguintes, provaram que o paliativo era isso: alongamento tecido em pó.
No caso deste país insular, a imigração nunca foi solução que valesse de muito. Tínhamos descendentes da diáspora de nosso povo que vinham em busca de trabalho – mas muitos voltavam para seus países de origem. Brasileiros, norte americanos, filipinos.
A questão foi defendida em livro bombástico, coletivo, por um grupo envolvendo alguns dos maiores filósofos de nosso tempo. Aventadas razões se espraiavam sobre as sociedades em debate, procurando equalizar os descontentes.
Vou até a antiga loja de charutos. É a única de Osaka, e uma das oito ou nove ainda presentes no país, a esta altura. Compro um charuto que sempre cobicei, se é que um fumante esporádico pode ser um cobiçador. Embrulho o artefato, assino o termo de segurança, em que afirmo que não irei consumir o “produto” em locais públicos – crime grave.
Em casa, sorvo o amargor da peça. Ligo o monitor, releio a carta do governo. Há algo de histórico nisso, ao menos – sou um dos 30 primeiros cidadãos do país a receber “A Carta”.
É estranho que um governo convide seus cidadãos para morrer. Em tempos de guerra, era comum. Nosso Império... Mas, nesses tempos de paz, de ruína econômica, nesses tempos em que a população economicamente ativa é tão menor que o número de aposentados, foi a saída que a civilização, já em meados do vigésimo primeiro século, encontrou para ajustar as coisas.
O convite, muito formal, principiava agradecendo os serviços prestados à pátria e à sociedade. Avançava, sem estender-se em demasia, dando conta das dificuldades, por todos conhecidas, que o maquinário previdenciário atravessava. Tergiversava sobre sacrifício e honra, esses gêmeos siameses. Terminava com uma despedida.
Acabei o charuto, de sabor bem pior do que eu há tanto imaginava. Uma metáfora disso tudo. Fui até o novo edifício governamental, erigido especialmente para isso: eutanásia coletiva de idosos e inválidos para a economia.
Nossa cultura é conhecida e construída sobre pilares de honra. Se toda uma sociedade milenar acredita que você deve morrer – até mesmo alguns de seus parentes, pessoas a quem você alimentou – que saída honrosa pode haver senão sujeitar-se em prol do bem comum?
Enquanto me deito na cadeira e aguardo o robô que aplicará a injeção letal, ouço da senhora ao lado, que sorria sem parar enquanto falava, que estávamos salvando nosso país, estávamos salvando a economia do Japão. Era bom que os mais velhos deixassem a vida e o peso estatal representado por suas aposentadorias. Era um sacrifício de “honra”.
Pensar que parte da imprensa, o que restara de humana nela, apelidara tal recurso de Endlösung der Judenfrage, “A Solução Final”, como aplicada por Hitler contra os judeus.
Fechei os olhos, enquanto ela continuava a sorrir e cacarejar. Segundos depois, ainda sem abrir os olhos, pude ouvir os rolamentos do robô deslizando pelo piso impecável. Como um samurai que meu povo desejava que eu fosse, não esbocei reação alguma quando senti a gélida penetração da agulha.
Sammis Reachers
- https://marocidental.blogspot.com/
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2020.04.12 23:06 samreachers CONTO: O Estado Eutanásico e a "Solução Final"

Recebi a carta às 12h23.
Almocei um ótimo pad thai, encomendado do restaurante tailandês da esquina. Caro, mas que diferença isso faz?
O programa começou há dois anos, na Holanda. Nos noticiários e meios de informação, foi fragoroso o debate. A aceitação venceu: que havia mais a fazer?
Escrevi vinte e sete mensagens, para filhos, aproximações de amigos, uma mulher a quem cortejava, mais por distração – para ambos.
Claro, era previsível a situação que agora aflorou junto a este encanecido chão do sol nascente. Já desde finais do pregresso, caído século se percebia com algum agravo a diminuição do crescimento vegetativo em muitos países. Alguns procuraram incentivar, até financeiramente, a que seus cidadãos procriassem. Outros tantos viram na imigração a solução paliativa para seu problema estato-existencial.
Por tudo se pagou um preço, e o tempo, as décadas seguintes, provaram que o paliativo era isso: alongamento tecido em pó.
No caso deste país insular, a imigração nunca foi solução que valesse de muito. Tínhamos descendentes da diáspora de nosso povo que vinham em busca de trabalho – mas muitos voltavam para seus países de origem. Brasileiros, norte americanos, filipinos.
A questão foi defendida em livro bombástico, coletivo, por um grupo envolvendo alguns dos maiores filósofos de nosso tempo. Aventadas razões se espraiavam sobre as sociedades em debate, procurando equalizar os descontentes.
Vou até a antiga loja de charutos. É a única de Osaka, e uma das oito ou nove ainda presentes no país, a esta altura. Compro um charuto que sempre cobicei, se é que um fumante esporádico pode ser um cobiçador. Embrulho o artefato, assino o termo de segurança, em que afirmo que não irei consumir o “produto” em locais públicos – crime grave.
Em casa, sorvo o amargor da peça. Ligo o monitor, releio a carta do governo. Há algo de histórico nisso, ao menos – sou um dos 30 primeiros cidadãos do país a receber “A Carta”.
É estranho que um governo convide seus cidadãos para morrer. Em tempos de guerra, era comum. Nosso Império... Mas, nesses tempos de paz, de ruína econômica, nesses tempos em que a população economicamente ativa é tão menor que o número de aposentados, foi a saída que a civilização, já em meados do vigésimo primeiro século, encontrou para ajustar as coisas.
O convite, muito formal, principiava agradecendo os serviços prestados à pátria e à sociedade. Avançava, sem estender-se em demasia, dando conta das dificuldades, por todos conhecidas, que o maquinário previdenciário atravessava. Tergiversava sobre sacrifício e honra, esses gêmeos siameses. Terminava com uma despedida.
Acabei o charuto, de sabor bem pior do que eu há tanto imaginava. Uma metáfora disso tudo. Fui até o novo edifício governamental, erigido especialmente para isso: eutanásia coletiva de idosos e inválidos para a economia.
Nossa cultura é conhecida e construída sobre pilares de honra. Se toda uma sociedade milenar acredita que você deve morrer – até mesmo alguns de seus parentes, pessoas a quem você alimentou – que saída honrosa pode haver senão sujeitar-se em prol do bem comum?
Enquanto me deito na cadeira e aguardo o robô que aplicará a injeção letal, ouço da senhora ao lado, que sorria sem parar enquanto falava, que estávamos salvando nosso país, estávamos salvando a economia do Japão. Era bom que os mais velhos deixassem a vida e o peso estatal representado por suas aposentadorias. Era um sacrifício de “honra”.
Pensar que parte da imprensa, o que restara de humana nela, apelidara tal recurso de Endlösung der Judenfrage, “A Solução Final”, como aplicada por Hitler contra os judeus.
Fechei os olhos, enquanto ela continuava a sorrir e cacarejar. Segundos depois, ainda sem abrir os olhos, pude ouvir os rolamentos do robô deslizando pelo piso impecável. Como um samurai que meu povo desejava que eu fosse, não esbocei reação alguma quando senti a gélida penetração da agulha.
Sammis Reachers
- https://marocidental.blogspot.com/
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2019.08.05 03:58 altovaliriano Fandom antes de "A Dança dos Dragões"

Link: https://bit.ly/2YJSOhS
Autora: Laura Miller
Título original: Just Write It!

[...] Embora “A Game of Thrones” não tenha sido inicialmente um sucesso, ele ganhou a defesa apaixonada de certos livreiros independentes, que o recomendaram aos seus clientes, que, por sua vez, empurravam cópias em seus amigos. Nasceu um corpo de seguidores, ainda que irregular. Parris McBride, esposa de Martin, relembra: “Quando George fez a primeira turnê de assinaturas da série, o gerente da Joseph-Beth Booksellers, em Kentucky, tinha quatrocentas pessoas esperando por ele. Algumas semanas depois, ele estava em St. Louis e ninguém apareceu para a assinatura.
Os dias em que ninguém aparecia procurando uma assinatura de Martin desapareceram há muito tempo. Em janeiro [de 2011], em uma aparição agendada às pressas na livraria Vroman, em Pasadena, centenas de fãs esperavam em uma linha que serpenteava pela loja. Eles apresentaram a Martin volumes de “As Crônicas de Gelo e Fogo” e trabalhos de seus primeiros anos como escritor de ficção científica, bem como com calendários, pôsteres, e-readers, revistas pulp amareladas e réplicas de espadas. Três jovens usavam camisetas feitas à mão com os brasões de seus clãs favoritos da série. Martin estava incansavelmente atento a seus suplicantes, incluindo o casal que lhe pediu para posar para uma foto com sua filha pequena, chamada Daenerys, em homenagem a uma de suas heroínas.
Martin já vendeu mais de quinze milhões de livros em todo o mundo, e seus leitores provavelmente se multiplicarão exponencialmente após o lançamento, neste mês, de "Game of Thrones", uma série da HBO baseada em "A Song of Ice and Fire". Ele se compromete a fomentar seu público, não importa quão grande ele se torne. "Cabe a um escritor ser bom para seus fãs", diz ele. Ele escreve um blog animado e, apesar de ter um assistente, Ty Franck, que analisa a multiplicidade de comentários publicados nele, o próprio Martin tenta ler muitos deles. Um fã na Suécia, Elio M. García Jr., mantém uma presença oficial para Martin no Facebook e no Twitter, e também dirige o principal fórum “Ice and Fire” da internet, Westeros.org. (Westeros é o nome do continente fictício que abriga os Sete Reinos.)
Quando Martin está viajando, o que é frequente, ele participa das reuniões da Brotherhood Without Banners, um fã-clube não oficial com ramos informais ao redor do mundo, e ele inclui seus fundadores e outros membros de longa data entre seus grandes amigos. Em muitos aspectos, ele é um modelo para autores contemporâneos confrontados com uma indústria editorial instável e um mercado fraturado. Anne Groell, editora da Martin na Random House, diz a seus autores: “Entrar em contato e construir comunidades com os leitores é a coisa mais importante que você pode fazer pelo seu livro hoje em dia. Você precisa fazer com que eles se sintam envolvidos em sua carreira. ”
[...]
McBride gosta de morar em Santa Fé - a área tem um “forte grupo de fãs”. Ela chama a comunidade de ficção científica de “minha tribo perfeita”. Com Martin, ela tentou incutir os costumes de sua geração de fãs na Brotherhood Without Banner. . A Irmandade, cujas origens remontam a uma convenção há dez anos na Filadélfia, não cobra uma taxa de associação nem tem uma estrutura organizacional definida. Qualquer coisa muito oficial, na opinião de McBride, "não é o jeito de ser do fã".
Na Irmandade, os encontros locais são chamados de assembleias [“moots”]. Na noite da assinatura do livro de Pasadena, uma assembleia foi realizada no quintal de uma casa em estilo espanhol na cidade. Os membros da fraternidade de tempos atrás se misturavam com os recém-chegados. Martin encostou-se ao corrimão de um deque, tomando cerveja e trocando anedotas sobre convenções anteriores.
Não há dúvida de como se sentem os membros da Irmandade sobre a longa espera por “A Dança dos Dragões”. Um grupo na festa respondeu com tremores de cabeça e exclamações de nojo quando Martin os informou: “Eu ainda estou recebendo e-mail de idiotas que me chamam de preguiçoso por não terminar o livro logo. Eles dizem: ‘É melhor você não dar uma de Jordan". Robert Jordan, cujo verdadeiro nome era James Oliver Rigney Jr., morreu de amiloidose em 2007, antes de finalizar a série "Wheel of Time". (Outro escritor, Brandon Sanderson, vai terminá-la). Martin disse que achou tais observações particularmente insensíveis: “Eu conhecia Jim, que é como seus amigos o chamavam. Ele era meu amigo.”
[...]
Vários veteranos me informaram sobre as tradições do grupo. Na primeira festa da Irmandade, em 2001, um folião embriagado (essa é uma galera que gosta de levantamento de copo) pediu que Martin o armasse cavaleiro. Martin disse: "Eu não posso te armar. Você ainda não saiu em uma missão!”. Quando seu peticionário implorou a Martin que inventasse uma, ele mandou o fã e vários outros em busca de sanduíches de queijo da Filadélfia [Philly Cheesesteak]. Quando eles voltaram com o prêmio, Martin apelidou o grupo de Cavaleiros do Cheesesteak. Então começou o costume de Martin mandar os fãs para fora no meio da noite com ordens de trazer comida de rua local. As buscas da Irmandade são uma versão mais suave de um trote de fraternidade, proporcionando à pessoas que têm em comum apenas um gosto literário particular experiências compartilhadas que as transformam em amigos.
Foi uma noite rápida e, enquanto nos aglomerávamos junto a uma lareira de barro, um fã chamado Erik Kluth relembrou o debate em Kansas City, onde foi feito cavaleiro. Martin ordenara a ele e a alguns outros fãs que pegassem pontas do peito tostadas. Mas no momento em que Martin emitiu seu decreto, os restaurantes fecharam. Em desespero, os fãs correram com o lixo deixado de fora de um estabelecimento. Por fim, os fãs tentaram eles mesmos cozinhar o prato, no estacionamento de uma farmácia. Martin ficou impressionado o bastante com o esforço para chamá-los de os Cavaleiros da Lixeira.
Eu também conheci Kim Ohara, uma mulher de fala mansa que tem sido um membro da Irmandade desde a primeira assembleia. Ela me disse que, mesmo em fóruns da Internet dedicados ao trabalho de Martin, grande parte da discussão não é sobre "As crônicas de Gelo e Fogo". "Você consegue conversar sobre os livros apenas por um tempo", disse ela. Uma vez que os fãs passam a se conhecer, o foco tende a mudar para as histórias de suas próprias vidas. Vários membros da Irmandade se casaram. Em certo caso, Martin ajudou um fã assinando um dos livros de “Gelo e Fogo” com uma notável inscrição: uma proposta de casamento para outro fã.
Elio García estima que passe até 35 horas por mês supervisionando Westeros.org, o site de discussão de “As Crônicas de Gelo e Fogo”. García, um cubano-americano, mudou-se para a Suécia para ficar com a namorada em 1999, no mesmo ano em que os dois fundaram a Westeros.org. Ela o apresentou à série de Martin, e ele logo compartilhou sua obsessão por isso. O site agora tem cerca de dezessete mil membros cadastrados. Apesar de seu apego aos livros, García não chegou a conhecer Martin ou outros fãs antes de 2005. “Eu nunca fui dessa coisa toda de convenções”, ele me disse. “Eu considero muitas dessas pessoas como amigos. Mas eles não são amigos físicos, vizinhos. São pessoas que conheço na Internet. ”
García é um super-fã. Seu conhecimento do mundo inventado de Martin é tão enciclopédico que o autor o dá como referência aos pesquisadores da HBO quando eles têm perguntas sobre a produção de “Game of Thrones”. Embora a participação de García em Westeros.org seja voluntária, seu envolvimento com o trabalho de Martin se tornou semi-profissional. Ele está sendo pago dar consultoria aos licenciadores criando merchandise editorial e escrever textos para um videogame baseado na série.
Ele e Martin estão colaborando em um guia abrangente para os livros, "O Mundo do Gelo e do Fogo". O próprio Martin às vezes verifica algo com García quando ele não tem certeza se ele está certo quanto a um determinado detalhe. Martin disse: "Eu escrevo algo e envio um e-mail a ele para perguntar: 'Já mencionei isso antes?' E ele me escreve de volta: ‘Sim, na página 17 do Livro Quatro’.”
[...]
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2018.04.06 14:20 red_law Conto: Pesadelo vivo

Era o terceiro dia após a fuga desesperada do sanatório abandonado. A situação não estava nem um pouco melhor. O próprio ar era opressor. A terra parecia estar morta. Nada crescia na região. Não se viam animais. A desolação se expandia até onde a vista alcança.
Os dias eram muito ruins. O sol parecia estar encoberto o tempo todo, mesmo não havendo nuvens. Mas as noites eram a pior parte. Os gritos começavam assim que o sol se punha. Eram incessantes, inumanos. Penetravam os ouvidos e a alma dos viajantes. Se não fosse pelo pequeno dispositivo encantado fornecido pelo patrocinador da missão, que emitia um som neutro e atrapalhava o barulho dos gritos, eles já teriam sucumbido desde o primeiro dia que entraram nessa terra desolada. E, com os gritos, vinham também os restos. Pareciam ser pedaços de pessoas costurados entre si, sem muita preocupação com a anatomia de um humano vivo. E a maior parte das noites era passada acordada, evitando que esses restos chegassem perto.
Seguiam na direção nordeste, para a fronteira. Sem outra saída, o grupo continuava viajando. Passaram mais uma noite sem muito descanso por causa dos gritos e restos.
O quarto dia amanheceu. O clima estava mudado. Haviam muitas nuvens, e um vento estranho soprava. Não demorou muito e começou a chover. A própria chuva parecia podre. Se aquela chuva era comum na região isso explicava a quase inexistência de vida local, e até mesmo o estado do solo.
Continuaram em sua viagem penosa, agora com uma chuva fétida atrapalhando. E como o sol estava realmente encoberto, os gritos podiam ser ouvidos durante o dia. E até mesmo um grupo de restos ambulantes podia ser visto, seguindo em seu encalço. Não pararam pra almoçar nem descansar. Caminharam o dia inteiro.
Quando a noite chegou, improvisaram um acampamento. Um dos viajantes, um mago, criou uma fogueira que a água da chuva não conseguiria apagar facilmente. Além disso, fizeram também algumas armadilhas improvisadas com um pouco de engenhosidade e conhecimentos arcanos.
Depois de algum tempo, perceberam uma mudança: os gritos não gritavam mais, e não havia restos se aproximando. Mas a tempestade ficou mais grossa, e ainda mais fedida. E a cada relâmpago, na pouca iluminação que havia, podiam ver ao longe, na linha do horizonte, algo que parecia um furacão ou tornado.
De repente, ouviram um som diferente. Parecia um assovio grave, como se fosse uma nota de um instrumento como uma flauta. Houve uma resposta a esse som. Em seguida, viram e ouviram várias flechas caindo no chão, formando um perímetro em torno do acampamento. Uma voz feminina falou:
-- Se sabem o que é bom, baixem as armas.
Obedeceram. O cansaço era muito grande, e não estavam em condições de lutar. Além disso, era a primeira voz humana que ouviam desde que começaram essa missão suicida.
Assim que se renderam, a mulher que havia dado o comando praticamente se materializou na frente da fogueira. Ela usava uma roupa tão preta quanto a noite. Trazia em suas mãos uma espada de lâmida curva.
-- Ventos da Noite? -- um dos membros sussurrou.
-- Sim. Quem são vocês e o que estão fazendo aqui?
-- Sou de Casa Antiga -- o homem respondeu. Estamos procurando atravessar a fronteira. Temos assuntos em...
-- Certo -- interrompeu a mulher. Vocês não parecem viajantes comuns, mesmo. Mas a lei aqui é cumprida por nós, da Tropa dos Ventos da Noite. E a nossa ordem é prender todos os que estiverem se esgueirando por Tarchii. Temos muito problemas por aqui. Vocês virão em paz ou precisaremos fazer isso do jeto difícil?
Sem oferecer resistência, entregaram-se à mulher. Outras cinco pessoas, vestidas com vestimentas o mesmo tipo de tecido muito escuro que a mulher, também surgiram da noite e recolheram as armas e outros pertences do grupo.
Caminharam por três horas na direção sudeste, guiados pelo grupo de soldados. A tempestade não dava sinais de que iria terminar tão cedo. Ao contrário, ficava cada vez mais grossa. Vez ou outra ouviam a mulher praguejar contra o tempo, que atrasava o avanço do grupo. Ouviram mais uma vez o assovio grave, e em seguida uma resposta. Algumas chamas foram acesas em pequenos postes, e puderam ver que estavam em um acampamento bastante organizado.
A mulher os guiou para um galpão de madeira. Havia alguns colchões, e o lugar estava seco e limpo. Então, ela disse:
-- Manteremos suas armas e demais pertences guardados. Mas vocês terão de ficar aqui. É seguro, vocês podem descansar. Enviei uma mensagem para nosso comando superior, para que decidam o que fazer com vocês. Antes do amanhecer devemos ter resposta, se essa maldita tempestade permitir. Por favor, não tentem escapar. Será muito pior.
Sem forças para qualquer coisa, e sentindo-se minimamente seguros pela primeira vez em uma semana, acabaram dormindo quase que imediatamente.
Um barulho acordou a todos. O vento era tão forte que parecia que o galpão estava sendo destruído. A porta se abriu, a mesma mulher que os havia guiado entrou.
-- Aqui estão suas armas. Saiam daqui. Alguma coisa está acontecendo, não é seguro ficar...
Um pedaço do telhado voou. A chuva forte começou a entrar no galpão. Um forte cheiro de sangue invadiu o local. Na luz interna puderam perceber: a própria chuva era de sangue.
-- Mas o que diabos -- começou um dos viajantes.
-- Rápido! Fujam! -- gritou a mulher e saiu pela porta novamente.
Os viajantes pegaram seus pertences e saíram do galpão. A cena do lado de fora era um pesadelo vivo. O vento havia destruído quase todo o acampamento. Vários soldados dos Ventos da Noite jaziam mortos. Um homem alto, com olhos que emitiam um brilho vermelho, trajando vestes reais, estava parado no meio do acampamento, intocado pela chuva de sangue e pelo vento da tempestade. Atrás e um pouco acima dele, não muito longe, um tufão de sangue pairava. Raios e trovões emanavam constantemente, e o barulho dos gritos era enlouquecedor. O homem os olhou e apontou em sua direção. O tufão acima dele se moveu. Uma rajada de vento e sangue os atingiu com tanta força que foram lançados contra as paredes do galpão. Ainda tentaram se reagrupar, mas os gritos agora eram como amarras físicas. O som os oprimia, até respirar parecia mais difícil. O homem se aproximou. Um dos viajantes o reconheceu, e falou com espanto:
-- Príncipe Najih? Mas... Como?
O homem parou. Olhou para eles, um a um. Sem dizer uma palavra, virou de costas e saiu caminhando. O tufão agora se aproximava deles. O cheiro do sangue, a força dos ventos, e os gritos se tornaram insuportáveis.
A Tempestade finalmente os engoliu.
Esse foi o início de um dos plot points mais legais da mesa. Editei um pouco o texto pra remover algumas referências a locais, nomes e mecânicas internas do sistema que usamos, pois só fariam sentido para o pessoal do meu grupo, por isso o texto pode ter ficado meio "cortado".
Essa tempestade de sangue tem um histórico legal. O mestre da mesa é meu primo. Ele uma vez, há uns 20 anos (contando de hoje) teve um pesadelo com uma tempestade assim. A partir desse pesadelo ele desenvolveu toda a história do mundo onde se passam nossas aventuras. Os eventos descritos nesse conto aconteceram, em mesa, lá por volta de 2003.
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2017.12.19 18:51 _ahoyahoyahoy sobre os caça-gringas. O melhor do Brasil é o Brasileiro!

Contemporaneamente, visualizamos ainda a emergência de outros atores no sexo transacional brasileiro: alguns jovens homens, que residem em badalados destinos turísticos, com destaque para pequenas localidades da costa do Nordeste, como a Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte, têm incorporado de forma ativa e consciente os atributos historicamente despejados sobre a mulher brasileira (sensualidade e calidez, por exemplo), visando tirar vantagens para si em face do crescente fluxo de turistas que viajam sem a companhia de homens, as quais, por seu turno, a partir de algumas reformulações simbólicas, deslocam e direcionam os estereótipos da brasilidade para os homens locais. Apoiando-se nos mesmos mitos que fabricaram e disseminaram a fama da mulata brasileira, inúmeras turistas estrangeiras vêm ao país em busca da possibilidade de interação com a “autêntica” masculinidade dos trópicos: viril, disponível, hipersexualizada, envolvente, “bemdotada”, afetiva e marcada pela “cor do pecado”. Trata-se da mutação do homem brasileiro em atrativo turístico, o que, para muitas das turistas estrangeiras que visitam Pipa, finda por ser também o melhor “produto” do Brasil.
fonte: http://www.scielo.bscielo.php?pid=S1984-64872011000200004&script=sci_abstract&tlng=pt
Então, tem gringa que vem para o brasil procurando pipa?
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